Parque eólico de Aratuá (RN). Foto: GE

Que tal receber para consumir energia?

No último domingo, 8 de maio, os alemães viveram uma situação no mínimo interessante. Por volta das 5h da manhã, ao invés de pagarem para consumir energia elétrica, eles receberam uma espécie de bonificação de €24 por Megawatt-hora (MWh) consumidos, que serão descontados na fatura mensal que as distribuidoras mandam para os clientes no final do mês.

O evento não foi uma graça das empresas. Aconteceu simplesmente porque lá, à semelhança do que ocorre no Brasil, as geradoras fazem um leilão de energia, que é adquirida pelas distribuidoras para ser revendida aos consumidores finais. Nos leilões europeus, primeiro eles ofertam as energias mais baratas, que são obtidas pelas fontes renováveis  – eólica, solar, biomassa, maré-motriz etc. -, e só depois vendem as que são produzidas nas centrais a gás, a carvão ou nucleares.

Naquele horário do dia, 87% da energia produzida na Alemanha se originavam das fontes renováveis, o que acabou criando uma situação de excesso de energia. Para minimizar, houve o desligamento das geradoras a gás, o que não pode ser feito com tanta facilidade com as nucleares ou com as que utilizam o carvão da geração. Como as duas modalidades continuaram produzindo, as companhias tiveram que fazer uma espécie de liquidação de energia, levando os preços aos patamares negativos.

Nada é de graça

Claro que isso não significa que os consumidores passarão a ter energia gratuita, em médio ou longo prazo. Afinal, mesmo com o preço baixo das renováveis, existem os custos de distribuição, de manutenção de equipamentos etc. que precisam ser cobrados. Além disso, o consumo de energia é crescente e, mais cedo ou mais tarde, a demanda aumenta e, a reboque, o valor da energia também crescente. Tanto que, por volta das 6h da manhã, o preço da eletricidade alemã já havia retornado a €24 positivos por MWh.

De acordo com o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (Apren), Antônio Sá da Costa, em 2014 foram registradas 200 horas de preço zero em Portugal. “É claramente uma exceção. Como se fossem saldos para despachar estoque. Só fizeram porque sabiam que é um por um período limitado. Depois os preços sobem”, disse Sá da Costa ao português Dinheiro Vivo.

Por outro lado, esse fato representa que, pelo menos na Europa, a introdução das fontes limpas tem criado uma tranquilidade muito grande com relação à garantia de fornecimento.

Situação no Brasil

De acordo com o relatório do Banco de Informações de Geração (BIG), da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), atualizado na data de publicação desse post (14 de maio de 2016), as fontes renováveis respondem por 70,88% da capacidade de geração de energia elétrica nacional – incluindo nesse rol as hidrelétricas (61,1%), as eólicas (6,06%) e as fotovoltaicas (0,02%). As termonucleares ficam com 1,39% do total, enquanto as térmicas respondem por 27,73%, somando ambas 29,12%.

Ainda de acordo com a Aneel, a geração, a transmissão e os encargos setoriais respondem por 53,3% do valor final da conta de energia elétrica. O restante corre por conta da distribuição (17%) e da tributação (29,5%). Portanto, nota-se que a geração, em si, é uma das grandes responsáveis pelo custo da eletricidade que consumimos.

Diante desses números, também é possível perceber que grande parte da capacidade geradora nacional é originária em fontes renováveis. Contudo, nossa matriz considera mais de 60% de geração hidrelétrica, o que significa que em épocas de estiagem prolongada a dependência das térmicas aumenta. Como o custo da eletricidade nas térmicas é maior, surge a tendência de que nossa conta de luz se mantenha em um crescente, até que novas hidrelétricas entrem em operação ou que o país diminua a dependência das chuvas. Esta última possibilidade só virá quando os investimentos em geradoras eólicas, fotovoltaicas e  nas que utilizem biomassa ou outras fontes de geração renováveis sejam tão consistentes quanto aqueles que são feitos no setor hidrelétrico.

De acordo com o BIG, atualmente o Brasil possui cerca 158 Megawatts (MW) de potência outorgada. Aproximadamente 9,5 MW devem ser gerados a partir de empreendimentos em construção. Desse total, 35% deverão vir de centrais eólicas enquanto as fotovoltaicas ainda não saíram do papel.

Porém, como no Brasil o potencial de geração a partir de fontes renováveis é imenso, inclusive daquele advindo de biomassa, são boas as perspectivas de que, em um futuro não muito distante, nós também tenhamos o mesmo privilégio dos alemães de receber uma bonificação para consumirmos energia.

 

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