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A responsabilidade é do boi?

O assunto é controverso. De um lado, há comprovações científicas que dizem que a pecuária é responsável por grande parte das emissões dos gases de efeito estufa o que, por consequência, estaria contribuindo para o aquecimento global. Por outro, há quem defenda uma pecuária sustentável que, até, poderia contribuir para a fixação de carbono, o que ajudaria a diminuir o efeito estufa.

A turma do aquecimento

A comunidade científica internacional defende que a pecuária é responsável por emitir entre 15% e 18% dos chamados gases de efeito estufa – que são, principalmente, o metano (CH4) e o gás carbônico (CO2) – o que coloca a atividade na posição de grande vilã do aquecimento global.

Os números batem com o que diz o Inventário Nacional de emissões de gases de efeito estufa, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que estima que 15,4% do total das emissões no Brasil devem ser colocadas na conta do rebanho brasileiro, contra 15,1% do que seria de responsabilidade da queima dos combustíveis fósseis. Segundo estudo da montadora de veículos Mercedes-Benz, a pecuária teria uma responsabilidade ainda maior: 18% de todas as emissões deveriam ser atribuídas aos bois, porcos, aves e outros animais que são criados para abate, enquanto 13,5% seriam originados no transporte.

Fato é que, quaisquer que sejam os tamanhos das emissões, o hábito de comer carne tem influência direta sobre o aquecimento do planeta e a lógica é bastante simples. Na respiração os animais eliminam gás carbônico, enquanto nos processos digestivos produzem muito metano, que é o gás mais preocupante. Quanto mais carne a gente come, mais animais precisam ser criados, o que resulta em mais gás carbônico e muito mais metano. Com mais gás carbônico e mais metano na atmosfera, maior é o efeito estufa. Quanto maior o efeito estufa, maior é aquecimento da Terra.

Resumindo: de acordo com essa lógica, quanto mais carne comemos, mais quente nosso planeta fica.

Na direção oposta

Contudo, há quem caminhe na contramão desse raciocínio. De acordo com o matemático Rafael Silva, se houver um aumento de 30% no consumo de carne, como resultado, haverá uma redução de 4% nas emissões. Pela lógica do matemático, a justificativa estaria na exigência de aumento do tamanho das áreas de pastagens, o que seria necessário para manter o rebanho bovino. Áreas de pastagens maiores acarretariam maior sequestro de carbono e, consequentemente, na redução do efeito estufa.

Esta conclusão foi obtida a partir de um modelo matemático desenvolvido para estudo realizado pelo Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Faculdade Rural da Escócia e o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França.

Meio termo

Outro caminho que a ciência tem buscado é o de desenvolver critérios de sustentabilidade para a pecuária. Nesse sentido, os pesquisadores estão analisando técnicas que possibilitem a criação de gado com menor emissão de gases. Este e o objetivo do projeto Pecus (de “pecuária sustentável”), que vem estudando a dinâmica dos gases de efeito estufa que esteja relacionada à pecuária brasileira nos diversos biomas – Amazônico, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal, Pampa e Cerrado.

No Campus Codó, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), por exemplo, por meio de uma parceria com a Embrapa, os pesquisadores já avançaram bastante nas pesquisas relativas ao bioma Amazônico, obtendo resultados muito positivos com relação à redução das emissões de metano. Lá, após adotarem determinadas técncias de criação do gado bovino, eles chegaram a obter medições de metano até 25% menor do que indicam os organismos internacionais para o setor. Como o metano é 23 vezes mais potente que o gás carbônico na geração de efeito estufa, este resultado é muito relevante.

Mudança de hábito

Por outro lado, uma mudança nos hábitos alimentares humanos poderia significar uma redução drástica dos níveis de emissões. Pelo menos é o que diz um estudo desenvolvido pela Oxford Martin School, da Inglaterra, que concluiu que, se as pessoas consumissem apenas a quantidade de carne que é recomendada para uma dieta saudável, os níveis das emissões poderiam ser reduzidos em um terço até 2050. De acordo com o Ministério da Saúde, uma dieta saudável deveria incluir, no máximo, 100 g de carne por dia, o equivalente a um bife pequeno. Para o Word Cancer Research Fund, organismo norte-americano de prevenção ao câncer, a quantidade limite seria de 500g, o que torna as porções diárias ainda menores.

O estudo da Oxford Martin School mostra também que as reduções poderiam ser ainda mais consistentes, se as mudanças nos hábitos alimentares fossem mais radicais. Segundo a pesquisa, se toda a humanidade se tornasse vegetariana as emissões seriam reduzidas em 63%. Se todos fôssemos veganos – ou seja, se não consumíssemos nenhum alimento de origem animal, nem mesmo ovos, leite e derivados – a redução seria de 70%.

Qualquer que seja o ponto de vista científico, um fato deve ser observado também pelos leigos: somos todos responsáveis por tudo o que vem acontecendo com a Terra. Afinal, não há nenhuma dúvida de que nosso hábitos são determinantes da qualidade ambiental do nosso planeta.

 

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